A integração logística da América do Sul atravessa um momento decisivo com a ascensão de megaprojetos de infraestrutura que prometem redefinir as rotas comerciais entre o Atlântico e o Pacífico . O avanço de iniciativas como o Porto de Chancay, no Peru, e o Corredor Bioceânico de Capricórnio coloca o continente no centro da disputa geoeconômica global entre China e Estados Unidos . Estes projetos não são meras obras de engenharia; representam movimentos estratégicos dos Estados para capturar fluxos comerciais e garantir vantagens competitivas na Bacia do Pacífico Sul . No entanto, a magnitude desses investimentos traz consigo riscos estruturais significativos, como a dependência de potências estrangeiras e a possibilidade de criação de infraestruturas subutilizadas em um cenário de comércio internacional cada vez mais fragmentado e instável .
Geoeconomia e a nova ordem comercial internacional
O conceito de geoeconomia descreve uma mudança profunda na ordem internacional, onde o comércio, o investimento e a tecnologia tornam-se instrumentos diretos de poder estatal . Neste contexto, os mercados não operam de forma neutra, e grandes projetos de infraestrutura funcionam como alavancas estratégicas . A China tem implementado uma estratégia de longo prazo baseada em investimentos em nós críticos das cadeias de suprimentos globais, como o Porto de Chancay, que visa ser o principal centro logístico entre a Ásia e a América do Sul . Por outro lado, os Estados Unidos intensificam a lógica de controle tecnológico e restrições comerciais, transformando investimentos portuários em ativos de uma disputa de poder muito mais ampla e complexa .
O ecossistema de interesses nos megaprojetos
Projetos de megainfraestrutura mobilizam um vasto conjunto de atores, desde engenheiros e bancos até investidores estrangeiros e autoridades políticas . Esse ecossistema frequentemente reforça uma narrativa otimista, onde os benefícios econômicos são ampliados e os riscos são minimizados em prol do prestígio e dos contratos . O chamado “teorema do megaprojeto” indica que essas obras exibem quase sistematicamente estouros de orçamento, atrasos cronológicos e superestimação de demanda . Uma vez que entram na agenda política, tornam-se “grandes demais para falhar”, incentivando Estados a resgatá-los com recursos públicos mesmo quando a viabilidade econômica deixa de ser racional frente às mudanças do mercado global .
Estratégias logísticas: centralização versus descentralização
O Peru e o Chile adotam caminhos distintos para enfrentar os desafios da conectividade global . Enquanto o Peru aposta na centralização extrema com o megaporto de Chancay, o Chile avalia tanto a ampliação portuária em San Antonio quanto a estratégia do Corredor Bioceânico de Capricórnio . Este corredor representa uma abordagem de infraestrutura distribuída, conectando rodovias e portos já existentes em uma rede que envolve Brasil, Paraguai e Argentina . Essa estratégia busca resiliência por meio da cooperação multinacional, distribuindo riscos e benefícios entre os territórios regionais, o que reduz a vulnerabilidade a choques geopolíticos unilaterais e fortalece o comércio intrarregional no Cone Sul .
Riscos de infraestrutura e dependência externa
A principal fragilidade dos megaprojetos reside na incerteza da demanda futura, que depende das decisões de grandes companhias marítimas e da evolução das tensões entre potências . Em Chancay, o risco é amplificado pelo controle de atores estrangeiros que podem exigir garantias soberanas ou se retirar em caso de instabilidade política . Já o Corredor Bioceânico, embora mais flexível, enfrenta desafios de coordenação entre parceiros e desigualdade de taxas de investimento entre os países . O risco do “elefante branco” — infraestruturas gigantescas com baixa utilização — paira sobre projetos que ignoram a fragmentação comercial e a possibilidade de redução nos fluxos de carga transoceânica .
Lições de prudência estratégica para a América do Sul
Para economias abertas e exportadoras, as decisões sobre infraestrutura exigem análises que transcendem o simples cálculo de custo-benefício . A diversificação de parceiros e o avanço em fases condicionadas à demanda real surgem como recomendações fundamentais para manter a independência nacional . Integrar-se de forma flexível à reconfiguração do comércio global, por meio de alianças regionais sólidas, permite maior mobilidade diante da disputa de poder entre grandes potências . Portos e corredores devem ser compreendidos como artefatos geopolíticos; erros de planejamento nessas áreas podem ser pagos com endividamento e perda de soberania por décadas, exigindo uma visão de Estado que priorize a resiliência e a integração continental .
Perguntas frequentes
Qual a principal diferença entre o porto de Chancay e o Corredor Bioceânico?
Chancay é um megaprojeto centralizado de um único porto focado no comércio com a Ásia, enquanto o Corredor Bioceânico é uma rede descentralizada que integra diversos portos e países da América do Sul .
O que é o risco do “elefante branco” em infraestrutura?
Refere-se a projetos gigantescos e caros que acabam tendo baixa utilização real, gerando mais custos de manutenção e dívidas para o Estado do que benefícios econômicos efetivos .
Como a disputa entre China e EUA afeta os portos sul-americanos?
A rivalidade gera instabilidade nos fluxos comerciais e pressões políticas para que os países escolham tecnologias e parceiros de investimento de um dos lados, impactando a viabilidade de longo prazo dos projetos .
Fique atento aos desdobramentos da integração sul-americana e entenda como esses projetos impactam o desenvolvimento regional. Acompanhe as análises estratégicas para compreender o papel do Brasil na nova rota do comércio global.
Redação Portal Guavira


