A comissão temporária para interlocução sobre as relações econômicas bilaterais com os Estados Unidos (CTEUA) aprovou nesta quarta-feira, 03/12, o relatório final da senadora Tereza Cristina (PP-MS). O documento defende uma estratégia ativa de diplomacia econômica para proteger as exportações brasileiras e fortalecer as relações bilaterais e multilaterais do país.
Entre as recomendações a serem encaminhadas aos Ministérios de Relações Exteriores e de Desenvolvimento, Indústria e Comércio, a relatora propõe ampliar a presença institucional do Brasil em Washington, intensificar o diálogo direto entre os dois Parlamentos, criar uma estrutura permanente para monitorar investigações tarifárias americanas e diversificar mercados internacionais para reduzir a vulnerabilidade externa.
O relatório lembra que o tarifaço imposto pelos Estados Unidos, com alíquotas de até 50% sobre uma ampla cesta de produtos brasileiros, representou uma mudança brusca na relação comercial entre os dois países. Para Tereza Cristina, o impacto imediato da medida revelou fragilidades na interlocução bilateral e exigiu resposta coordenada entre o governo, Congresso e o setor produtivo.
A comissão realizou missão oficial a Washington entre os dias 28 e 30 de julho, considerada o marco central de sua atuação. A articulação do Senado, segundo Tereza Cristina, complementou a atuação do Itamaraty e ajudou a abrir portas políticas nos EUA, reforçando a interlocução entre governos e setores produtivos dos dois países.
” O trabalho começou, de alguma forma, desacreditado por muitos, mas nós hoje temos certeza dos efeitos que causou quando chegamos aos Estados Unidos, quando fomos ao Congresso Americano conversar com senadores e deixamos lá boa impressão e abrimos um canal de conversação com o Parlamento americano”, afirmou a senadora.
O presidente do grupo, senador Nelsinho Trad (PSD-MS), afirmou que o “movimento se mostrou como uma aposta acertada” ao colocar os interesse nacionais acima de posicionamentos ideológicos.
“No âmbito parlamentar, conseguimos pavimentar o caminho para os esforços coordenados e complementares de todos, Executivo, Legislativo, sociedade civil, empresariado. A retomada da interlocução com os Estados Unidos em meio a talvez a maior crise dos últimos séculos de relacionamento bilateral comprovou que, sozinho, seja quem for, não se chega à superação de obstáculos que talvez pareçam intransponíveis”, disse Nelsinho.
No parecer, a relatora afirma que a resposta à conjuntura pode passar por três eixos principais: engajamento direto com a administração norte-americana, buscando flexibilizações, exceções ou ajustes nas tarifas impostas; fortalecimento de canais parlamentares e uma articulação sistemática com o setor privado brasileiro e norte-americano.
Tereza Cristina destacou que o momento exige uma estratégia de longo prazo, voltada não apenas à reversão das tarifas, mas à correção de assimetrias e à ampliação da influência brasileira nos processos decisórios dos EUA.
” A conjuntura de 2025 evidencia que o relacionamento Brasil– EUA precisa ser conduzido para além dos instrumentos tradicionais da diplomacia estatal, não para substituí-los, mas para complementá-los e reforçá-los. A complexidade do ambiente regulatório norte-americano, a sobreposição de instrumentos tarifários e a crescente fragmentação política nos EUA tornam indispensável o fortalecimento da presença institucional brasileira nos múltiplos pontos do processo decisório daquele país”, complementou.
Dimensão geopolítica
No plano geopolítico, Tereza Cristina observa que o tarifaço afeta não apenas a relação bilateral, mas também o posicionamento internacional do Brasil. A crise, segundo o texto, abre espaço para o país intensificar relações com parceiros estratégicos — como Ásia, União Europeia e Brics ampliado — ao mesmo tempo em que pressiona Washington a rever políticas unilaterais. A relatora ressalta que a previsibilidade e a estabilidade são pilares essenciais para preservar investimentos, cadeias produtivas e acordos internacionais.
Recomendações
No documento, a relatora propõe um plano de ação com mais de 20 recomendações. Entre elas, destacam-se:
- Ampliar a presença institucional do Brasil em Washington, com reforço técnico capaz de acompanhar investigações tarifárias e legislações norte-americanas;
- Criar um mecanismo permanente de monitoramento do comércio bilateral, integrando Congresso, Itamaraty e setor privado;
- Aprofundar a diplomacia parlamentar, com canal direto entre os dois Senados;
- Diversificar mercados internacionais, reduzindo dependência de poucos parceiros;
- Fortalecer a atuação brasileira em organismos multilaterais, como OMC e G20, defendendo previsibilidade e regras claras no comércio internacional;
- Priorizar negociações que garantam competitividade a setores mais atingidos pelas tarifas.
A senadora ainda recomenda que a Comissão de Relações Exteriores (CRE) mantenha acompanhamento sistemático da crise e que o Senado continue atuando como ponte política entre os dois países. O objetivo é garantir que as negociações avancem e que o Brasil tenha posição de maior relevância em acordos, investigações e políticas tarifárias norte-americanas.
Impactos econômicos
Segundo o relatório, os efeitos da tarifa de 50% foram imediatos e atingiram praticamente toda a pauta exportadora brasileira, com prejuízos estimados pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) em R$ 52 bilhões e risco de queda entre 0,2% e 0,6% do PIB. Setores como aeronáutica, máquinas, carne bovina, frutas, pescados e metalurgia enfrentam perda de competitividade, com estados como São Paulo, Ceará e Minas Gerais entre os mais afetados.
O relatório aponta ainda que a medida também deve gerar impactos negativos na economia norte-americana. A tarifa média ao consumidor quintuplicou nos últimos meses e pode acarretar retração de até 1,6% no PIB dos EUA nos próximos três anos, com desorganização de cadeias produtivas que dependem de fornecedores brasileiros.
Avanços
O documento registra avanços recentes na agenda bilateral, incluindo: o encontro entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump em evento da ONU, na Malásia e reuniões técnicas entre o chanceler Mauro Vieira e o secretário de Estado Marco Rubio. Além disso, a senadora cita o anúncio, em novembro, da redução de tarifas de 50% para 40% em diversos produtos brasileiros, além da retirada de sobretaxas de 40% sobre itens agrícolas, como cafés especiais, castanhas e algumas proteínas.
Início dos trabalhos
A comissão temporária externa foi criada em julho, por iniciativa do senador Nelsinho Trad, e atuou por cinco meses. O grupo, de quatro senadores titulares e quatro suplentes, realizou, entre as atividades do colegiado, missão oficial a Washington entre 28 e 30 de julho, reunindo-se com oito senadores norte-americanos, membros da Câmara dos Representantes, think tanks (organizações que realizam pesquisas e análises para influenciar setores ou políticas), empresas e entidades como a U.S. Chamber of Commerce.
Leia abaixo a íntegra das recomendações feitas pela relatora, Tereza Cristina
RECOMENDAÇÕES E ENCAMINHAMENTOS
AO PODER EXECUTIVO FEDERAL
- Manter engajamento contínuo com o governo norte-americano
para buscar uma solução negociada, tanto no mais alto nível político
quanto em nível técnico, garantindo regularidade e previsibilidade no
diálogo. - Avaliar possibilidades concretas de visitas presidenciais
capazes de catalisar e acelerar as negociações em curso, com metas de
curto prazo e potenciais anúncios positivos. - Monitorar e participar ativamente, quando cabível, das
investigações das Seções 232 e 301, com equipes técnicas dedicadas e
capacidade de resposta rápida. - Manter articulação estreita com o Senado Federal, alavancando
a diplomacia parlamentar e beneficiando-se do intercâmbio de
informações qualificadas e de acesso político ampliado. - Fortalecer a representação institucional permanente nos Estados
Unidos, por meio das missões diplomáticas e repartições consulares,
com uma estratégia clara de engajamento de alto nível que reduza a
recorrência de crises e amplie a influência brasileira na dinâmica
política local. - Identificar setores prioritários, por relevância econômica, social
ou regional, que devam receber atenção especial nas próximas etapas
de desgravação tarifária. - Mapear áreas estratégicas para aprofundamento da cooperação
bilateral com os EUA, consolidando a relevância do relacionamento
em temas econômicos, tecnológicos, climáticos e de segurança. - Diversificar mercados para as exportações brasileiras, mediante
ofensivas de abertura comercial, e diversificar a pauta exportadora,
com políticas setoriais realistas e efetivas. - Intensificar a agenda de negociação de Acordos Comerciais,
ampliando a rede brasileira de acesso preferencial a mercados. - Fomentar iniciativas para o resgate e fortalecimento do
multilateralismo e de um comércio internacional baseado em regras,
articulando-se com parceiros afins. - Promover a imagem internacional do Brasil como parceiro
previsível, confiável e comprometido com a estabilidade econômica e
a segurança jurídica.
AOS PODERES EXECUTIVOS ESTADUAIS - Estados mais afetados pelo tarifaço devem promover
diplomacia subnacional junto aos Estados norte-americanos relevantes
para suas cadeias de valor, explorando parcerias locais e buscando
mitigação de impactos.
AO PODER LEGISLATIVO FEDERAL - Dar continuidade, no âmbito da Comissão de Relações
Exteriores e Defesa Nacional (CRE) do Senado Federal, às iniciativas
da CTEUA, estruturando um acompanhamento sistemático da agenda. - Manter engajamento constante e suprapartidário com o Poder
Executivo, atuando de forma complementar e cooperativa na defesa
do interesse nacional. - Oferecer canais permanentes para que as demandas da
sociedade civil e do empresariado, sobretudo dos setores mais
vulneráveis, sejam organizadas, priorizadas e encaminhadas
adequadamente. - Intensificar o relacionamento interparlamentar com o
Congresso norte-americano, ampliando contatos diretos e
promovendo visitas recíprocas de trabalho. - Buscar estabelecer uma instância bilateral permanente de
diálogo econômico entre parlamentares do Brasil e dos EUA, com
destaque para a participação dos respectivos Senados e foco em temas
de acesso a mercado e estabilidade regulatória.
À SOCIEDADE CIVIL - Levantar dados e produzir estudos que evidenciem os impactos
político-econômicos da evolução do relacionamento bilateral e
embasem intervenções públicas de qualidade. - Sensibilizar formadores de opinião nos EUA sobre os
benefícios mútuos da parceria Brasil-EUA, especialmente nas áreas de
clima, conservação, segurança, agricultura e inovação.
AO SETOR EMPRESARIAL - Empresas com capacidade para tanto devem assegurar
representação permanente de seus interesses junto às partes relevantes
nos Estados Unidos, com atuação estratégica e baseada em dados. - Articular-se setorialmente para apresentar demandas de forma
coordenada, coerente e priorizada ao setor público, maximizando
eficácia e previsibilidade. - Avaliar oportunidades reais de diversificação de mercados e
novos negócios, reduzindo dependência de poucos destinos e
ampliando resiliência.
Informações – Agência Senado – Redação Portal Guavira


